Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015

Era uma vez a coerência

 

Era uma vez, há pouco, pouquinho tempo atrás, um afoito fidalgo que lutava intensamente pela leal e transparente verdade desportiva do estaminé futebolístico português. O insuportável, mas venerado líder de uma agremiação de pretensos homens sérios autodenominados os “Diferentes”, trilhava o caminho da sua visão do rigor e da justiça para o futebol luso.

 

Aponta baterias ao rival, num ataque sem precedentes para acabar com a glória alheia. A angústia que lhe provoca o sucesso do Benfica leva-o a um caminho de combate, justifica-se com uma suposta ausência da verdade desportiva. Em tese, o Benfica sempre beneficiou de favores enquanto eles são os eternos prejudicados.

 

O conceito não é novo, há muito que os viscondes possuem esta consciência colectiva, mas hoje são sustentados pela propaganda diária dos órgãos de comunicação. Apetrechada de “boys”, a máquina funciona a todo o vapor, não se limitando a dar notícias mas principalmente a fabricá-las. Os interesses são mútuos e todos têm a ganhar.

 

Tudo corre sobre rodas, a pressão cresce no seio dos juízes e os jogos começam a correr de feição. Os erros sucedem-se e somam-se pontos.

 

Tudo faz sentido novamente. O que ontem era ordem do dia é hoje matéria caduca. Num ápice os árbitros são humanos e como tal susceptíveis a erros, principalmente quando têm de decidir numa fracção de segundos. Nos órgãos de propaganda, só é exibido o que interessa, relativizam-se erros e contratam-se “peritos” para dar credibilidade às suas apreciações.

 

O anti-Benfiquismo atingiu o auge. Hoje, nos meios de comunicação social, qualquer ataque ao Benfica é compreensível, tem razão de ser e é considerado totalmente legítimo, independentemente da forma ou da razão.

 

O Benfica a tudo isto tem contraposto com o silêncio. Quando se defende nos tribunais de situações onde se sente lesado, o procedimento é prontamente reprovado e considerado como acto provocatório e de destabilização.

 

Hoje em Portugal, fala-se muito da falta de transparência, de justiça e de legitimidade mas, na minha opinião, o que existe é uma gritante falta de coerência.

                         

    

publicado por Tasqueiro às 12:09
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Quinta-feira, 14 de Maio de 2015

A teoria da imputação

 

Vivem-se momentos de grande agitação no futebol nacional. O Benfica está muito perto de conquistar o segundo campeonato consecutivo, um feito que não se verifica há mais de 30 anos, período, esse, de total hegemonia do Futebol Clube do Porto.

 

Comentadores e jornalistas andam muito nervosos. A situação é considerada tão grave, que os leva a perder o controlo e, como isso, a produzir considerações que expõem o seu caracter.

 

Falam em atropelos flagrantes à verdade desportiva, em poucas vergonhas, que segundo eles, umas vezes são habilmente disfarçadas em outas, feitas às claras. Denunciam expulsões cirúrgicas, golos em fora de jogo, amarelos estrategicamente distribuídos, penaltis perdoados, até jogadores impedidos de jogar para facilitar jogos supostamente complicados. Manifestam-se incrédulos com nomeações de árbitros, que consideram autênticas provocações. Para eles, este campeonato está a ser um fartar de vilanagem, cuja vítima é o Futebol Clube do Porto (a pretensa superestrutura).

 

Não deixa de ser curioso, todos estes testemunhos serem um resumo dos últimos 30 anos do futebol nacional. Nesse tempo, afirmações como estas eram prontamente reprovadas e apelidadas de mau perder, consideradas nocivas para um ambiente saudável no desporto nacional.

 

Trata-se do queimar os últimos cartuchos, um último esforço para evitar o fim de uma hegemonia conquistada a ferro e fogo. A estratégia passa por imputar a outros acções que eles tão bem conhecem e usadas repetidamente, pela suposta vitima.

 

Protegidos por uma comunicação social reprimida e conivente, não caiem pela força da lei, terão de ser derrubados pela luta do “povo”.

 

              

 

publicado por Tasqueiro às 11:52
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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

O que é, o Calabote?

A tasca estava animada, um grupo de jovens conversava entusiasticamente na companhia de umas minis. O tema era gajas, as palavras mais usadas eram; boa, milho, peitos, pito, comia-a toda, mais parecia que conversavam sobre gastronomia. A certa altura, há uma voz que sobressai;
 
- Eh pá, já leram a Mística?
- A revista do Benfica?
- Essa mesma, vem lá uma…bem, que pedaço! É uma das cheerleaders, boa como o milho.
- Por falar em Benfica, andei a procurar algumas reacções ao dérbi, e tanto na net, como nos jornais ou na tv, vem sempre à “baila” o Calabote, alguém sabe o que é, o Calabote?
 
Como sempre, a conversa foi ter ao futebol. Fez-se silêncio, ninguém conseguia responder, até que se houve uma voz rouca e quase inaudível;
 
- Sr. Inocêncio João Teixeira Calabote … foi árbitro nos anos 50.
 
A rapaziada, qual molas, saltaram todos dos seus bancos, pegaram nas cervejas e dirigiram-se para um idoso que se encontrava sentado a um canto da tasca. Era com toda a certeza que ali, estava a pessoa indicada a esclarecer todas as suas ignorâncias sobre o assunto.
 
- Ó avô, podia-nos contar a “cena toda” à volta desse “bacano”!?
 
O velho, deitou um olhar confuso para o rapaz que lhe tinha feito o pedido.
Eu, consciente da situação, as palavras do jovem tinham sido “em estrangeiro” para o velho, esclareci;
 
- Eles querem que você conte o que se passou como o Inocêncio Calabote.
 
Enquanto proferia estas palavras, dirigia-me para a plateia, consciente de que ali se iria ouvir um pedaço da história do desporto nacional.
O velho, levou à boca o copo de vinho que tinha na mão e de um trago, esvaziou-o. De seguida, pousou-o devagarinho em cima da mesa, puxou de um lenço branco do bolso das calças, sem o abrir, passou-o pelos lábios e voltou a coloca-lo no bolso. Olhou para nós, e começou;
 
- Inocêncio Calabote foi o 1º árbitro a ser irradiado no futebol português.
Era um árbitro muito conceituado, na altura, era internacional e foi premiado pela Comissão Central de Árbitros como um dos melhores. Era definido como honrado e independente, pelas autoridades desportivas da época.
Tudo veio a mudar com um jogo, foi o Benfica-CUF. Se não estou em erro, na época 58-59, era a ultima jornada, o Benfica estava em 1º lugar empatado com o FC Porto, tinham os mesmos pontos e haviam empatado os dois jogos entre eles. O desempate era na diferença entre golos marcados e sofridos, e aí, o Benfica tinha 4 golos de desvantagem.
 
De repente, um dos jovens interrompeu a narrativa;
 
- Ó avô, aguente aí os “cavalos”, que eu já não tenho “pitrol”.
 
Virou-se para mim e ao erguer a garrafa de cerveja, disse;
 
- Traga lá uma rodada pá malta e um “xote” para o avô.
 
Na ânsia de saber o resultado da história, corri para o balcão e em segundos estavam entregues as cervejas e o copo de vinho aos clientes.
O copo e o lenço fizeram a viagem habitual, qual déjà vu, e a narrativa prosseguiu;
 
- Era um jogo decisivo. Como tal, foi escolhido um dos melhores árbitros da altura. Lembro-me como se fosse hoje, o Benfica jogava na Luz e o FC Porto em Torres Vedras, casa do Torreense. Uns lutavam pelo título e os outros pela permanência na 1ª Divisão. Os jogos eram realizados à mesma hora e o Benfica, por ratice, no intuito de poder vir a beneficiar do conhecimento do resultado em Torres Vedras, demorou o início do jogo em 6 minutos, atrasando a entrada em campo. O Benfica até foi multado por essa atitude.
O jogo da Luz terminou 10 minutos depois do de Torres Vedras, e foi esse o facto que levou à 1º irradiação de um árbitro no futebol português, o suposto tempo excessivo de descontos que deu. É essa, a história de Inocêncio Calabote.
- Então como é que ficou o campeonato? O Benfica conseguiu?! Foi Campeão?!
- Não.
- Não?!! Então porque se fala tanto nesse “bacano”? Fazendo as contas, dá 10 menos 6, o tempo de descontos foram 4 minutos, nada de mais. O homem foi irradiado por isso?
- Na altura não havia jogos na televisão, a rádio e os jornais eram a única informação de que dispúnhamos. Lembro-me de ler as análises do jogo, houve 3 pénaltis a favor do Benfica, só o 2º é que consideravam duvidoso. Quanto ao tempo de descontos, dão razão ao árbitro, os jogadores da CUF fizeram muito anti-jogo.
- Porra, tanta conversa sobre o Calabote e não vejo razão para tanto barulho.
 
O velho sorriu, com um ar matreiro, e prosseguiu;
 
- Eram outros tempos, o povo comia e calava.
- Então como é que ficou o jogo?
- O Benfica ganhou 7-1 e o Torreense perdeu por 3-0, os Andrades é que foram campeões nesse ano.
- Os Andrades? Então não foram os portistas?! Quem são os Andrades?
- Essa, é outra história e merece mais um copo.

 
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publicado por Tasqueiro às 11:07
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