Quinta-feira, 6 de Março de 2008

O que é, o Calabote?

A tasca estava animada, um grupo de jovens conversava entusiasticamente na companhia de umas minis. O tema era gajas, as palavras mais usadas eram; boa, milho, peitos, pito, comia-a toda, mais parecia que conversavam sobre gastronomia. A certa altura, há uma voz que sobressai;
 
- Eh pá, já leram a Mística?
- A revista do Benfica?
- Essa mesma, vem lá uma…bem, que pedaço! É uma das cheerleaders, boa como o milho.
- Por falar em Benfica, andei a procurar algumas reacções ao dérbi, e tanto na net, como nos jornais ou na tv, vem sempre à “baila” o Calabote, alguém sabe o que é, o Calabote?
 
Como sempre, a conversa foi ter ao futebol. Fez-se silêncio, ninguém conseguia responder, até que se houve uma voz rouca e quase inaudível;
 
- Sr. Inocêncio João Teixeira Calabote … foi árbitro nos anos 50.
 
A rapaziada, qual molas, saltaram todos dos seus bancos, pegaram nas cervejas e dirigiram-se para um idoso que se encontrava sentado a um canto da tasca. Era com toda a certeza que ali, estava a pessoa indicada a esclarecer todas as suas ignorâncias sobre o assunto.
 
- Ó avô, podia-nos contar a “cena toda” à volta desse “bacano”!?
 
O velho, deitou um olhar confuso para o rapaz que lhe tinha feito o pedido.
Eu, consciente da situação, as palavras do jovem tinham sido “em estrangeiro” para o velho, esclareci;
 
- Eles querem que você conte o que se passou como o Inocêncio Calabote.
 
Enquanto proferia estas palavras, dirigia-me para a plateia, consciente de que ali se iria ouvir um pedaço da história do desporto nacional.
O velho, levou à boca o copo de vinho que tinha na mão e de um trago, esvaziou-o. De seguida, pousou-o devagarinho em cima da mesa, puxou de um lenço branco do bolso das calças, sem o abrir, passou-o pelos lábios e voltou a coloca-lo no bolso. Olhou para nós, e começou;
 
- Inocêncio Calabote foi o 1º árbitro a ser irradiado no futebol português.
Era um árbitro muito conceituado, na altura, era internacional e foi premiado pela Comissão Central de Árbitros como um dos melhores. Era definido como honrado e independente, pelas autoridades desportivas da época.
Tudo veio a mudar com um jogo, foi o Benfica-CUF. Se não estou em erro, na época 58-59, era a ultima jornada, o Benfica estava em 1º lugar empatado com o FC Porto, tinham os mesmos pontos e haviam empatado os dois jogos entre eles. O desempate era na diferença entre golos marcados e sofridos, e aí, o Benfica tinha 4 golos de desvantagem.
 
De repente, um dos jovens interrompeu a narrativa;
 
- Ó avô, aguente aí os “cavalos”, que eu já não tenho “pitrol”.
 
Virou-se para mim e ao erguer a garrafa de cerveja, disse;
 
- Traga lá uma rodada pá malta e um “xote” para o avô.
 
Na ânsia de saber o resultado da história, corri para o balcão e em segundos estavam entregues as cervejas e o copo de vinho aos clientes.
O copo e o lenço fizeram a viagem habitual, qual déjà vu, e a narrativa prosseguiu;
 
- Era um jogo decisivo. Como tal, foi escolhido um dos melhores árbitros da altura. Lembro-me como se fosse hoje, o Benfica jogava na Luz e o FC Porto em Torres Vedras, casa do Torreense. Uns lutavam pelo título e os outros pela permanência na 1ª Divisão. Os jogos eram realizados à mesma hora e o Benfica, por ratice, no intuito de poder vir a beneficiar do conhecimento do resultado em Torres Vedras, demorou o início do jogo em 6 minutos, atrasando a entrada em campo. O Benfica até foi multado por essa atitude.
O jogo da Luz terminou 10 minutos depois do de Torres Vedras, e foi esse o facto que levou à 1º irradiação de um árbitro no futebol português, o suposto tempo excessivo de descontos que deu. É essa, a história de Inocêncio Calabote.
- Então como é que ficou o campeonato? O Benfica conseguiu?! Foi Campeão?!
- Não.
- Não?!! Então porque se fala tanto nesse “bacano”? Fazendo as contas, dá 10 menos 6, o tempo de descontos foram 4 minutos, nada de mais. O homem foi irradiado por isso?
- Na altura não havia jogos na televisão, a rádio e os jornais eram a única informação de que dispúnhamos. Lembro-me de ler as análises do jogo, houve 3 pénaltis a favor do Benfica, só o 2º é que consideravam duvidoso. Quanto ao tempo de descontos, dão razão ao árbitro, os jogadores da CUF fizeram muito anti-jogo.
- Porra, tanta conversa sobre o Calabote e não vejo razão para tanto barulho.
 
O velho sorriu, com um ar matreiro, e prosseguiu;
 
- Eram outros tempos, o povo comia e calava.
- Então como é que ficou o jogo?
- O Benfica ganhou 7-1 e o Torreense perdeu por 3-0, os Andrades é que foram campeões nesse ano.
- Os Andrades? Então não foram os portistas?! Quem são os Andrades?
- Essa, é outra história e merece mais um copo.

 
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publicado por Tasqueiro às 11:07
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